02) China ou Japão?

Em resposta a pergunta de Antonio Pinheiro sobre se deve priorizar os canivetes fabricados nos Estados Unidos e Japão em função da qualidade, quando comparado aos fabricados na China, considero os seguintes pontos:
1) Na China, como no resto do mundo, são produzidos artigos de boa qualidade e de péssima qualidade. Claro que isto está implícito no preço. Quando compramos um aparelho eletrônico de alta qualidade, mesmo fabricado na China, pagamos um preço compatível pela qualidade e nome do fabricante. Quando compramos um eletrônico de baixa qualidade pagamos um preço baixíssimo e nem olhamos para o nome do fabricante.
2) Geralmente associamos os produtos chineses aos “genéricos” encontrados em camelôs e bancas de rua no Brasil. Convém ressaltar que são produtos baratos e de péssima qualidade que suprem principalmente este mercado que procura coisa acessível em detrimento de qualidade ou durabilidade. Outro ponto interessante é o modelo econômico chinês, que com sua moeda de taxa fixa, permite que a produção saia da fábrica para o exterior com um custo quase inferior à matéria prima original empregada. Não é a toa que os americanos insistem tanto na valorização da moeda chinesa.
3) Depois da década de 1990 as melhores industrias do mundo instalaram fábricas ou terceirizaram produção na China, e isto no ramo da fotografia, computação, instrumentos cirúrgicos, automobilística, etc…
4) Agora, falando sobre cutelaria, nem sempre os piores produtos vem da China. Produtos paquistaneses são ainda piores. Até mesmo os Estados Unidos tem uma parcela de produção de canivetes de baixa qualidade, o que os especialistas americanos chamam de “máfia do Tennessee”. Ali também se produzem produtos de baixa qualidade, embora com o carimbo “made in USA”.
Atualmente todos os fabricantes de canivetes e facas do mundo, não só dos Estados Unidos, mantém ou planejam ter instalações na China, terceirizadas ou não. As ultimas que resistiam eram a Benchmade e Spyderco. Eles esperaram o quanto puderam para ver o resultado da concorrência, mas no momento em que sentiram que estavam perdendo espaço comercial, decidiram também seguir o caminho do oriente.
5) Analisando o caso especifico da Columbia River Knife & Tool (CRKT), posso com toda certeza afirmar que seus produtos só atingiram uma boa qualidade depois que transferiram sua produção para a China. Até o final dos anos 1990, eu pessoalmente considerava os produtos Columbia River de péssima qualidade, incluindo design, material e mão de obra, tanto que não os oferecia em meu site. Quanto Rod Bremer, co-fundador da CRKT, se decidiu pela China, seus produtos melhoraram muito em qualidade e preço, e permitiram que a CRKT comprasse designs (projetos) de cuteleiros famosos e os vendesse por preços acessíveis. Portanto, aqui fica bem exemplificado que neste caso a produção chinesa ficou melhor e mais barata que a produção americana. Claro que a CRKT enviou um time completo de engenheiros e técnicos americanos para supervisionar a produção na China. Outro ponto interessante, mesmo produzindo na China, a CRKT ainda sofria concorrência de outros fabricantes chineses que copiavam seus canivetes e os vendiam mais barato ainda, criando assim um mercado genérico e pirata. Portanto, a melhor política ainda é comprar de cutelarias famosas e estabelecidas ao invés de querer pagar uma parcela do preço por um produto genérico. No Brasil temos muito deste problema, onde alguns importadores preferem comprar produtos chineses de baixa qualidade que se “parecem” com os famosos, mas sem a qualidade destes.
6) Outra análise de caso: A Spyderco lutou durante anos para coibir a produção de cópias genéricas de seus produtos no oriente. Como não conseguiu vencer os copiadores, preferiu juntar-se a eles, mas com tecnologia e controle. Assim contratou a empresa Byrd da China para produzir uma variação popular de seus projetos. Enviou um time de técnicos para garantir a qualidade do material e mão de obra chinesa e assim manter seu padrão de qualidade impecável. Para diferenciar os produtos feitos na China dos produtos feitos no Japão ou Estados Unidos, ela projetou diversos novos modelos sob esta marca Byrd. Obviamente os produtos fabricados nos Estados Unidos ou Japão custam o dobro ou até mesmo o triplo, principalmente em função do custo de mão de obra e impostos.
7) Último estudo de caso: A Benchmade, tradicional cutelaria americana, que prezava tanto sua produção totalmente americana finalmente também se rendeu ao mercado e passou a produzir alguns canivetes na China. Assim ela mantém sua produção top nos Estados Unidos e outra linha mais popular, embora de alta qualidade, na China. Esta foi a maneira que a Benchmade, assim como as outras grandes cutelarias, encontraram para enfrentar o problema de preço e qualidade. Note que aqui também a Benchmade mandou, e mantém, técnicos no oriente para garantir sua produção e qualidade.
8) Finalizando: assim como em qualquer ramo do mercado, o que importa é o nome e tradição de qualidade da cutelaria que assina o produto e não onde este é fabricado. Se você comprar um canivete genérico por um preço super baixo e de uma marca desconhecida feito na China, com certeza você estará pagando o preço justo, pois, com certeza este canivete não terá qualidade nenhuma. Qualidade custa dinheiro, aqui, na China ou em qualquer outro lugar.
Mas, se você comprar um canivete de uma cutelaria estabelecida e reconhecida pela qualidade, pagará mais caro mas terá certeza da qualidade, mesmo que este tenha sido fabricado na China.
Em uma década no máximo, prevejo que todas as cutelarias estarão produzindo na China e então os canivetes fabricados nos Estados Unidos ou Japão serão mais valorizados pelos colecionadores. Embora esteja claro que um canivete produzido na China não visa o mercado de colecionismo, mas o de usuário final que realmente colocará seu canivete para trabalhar.

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Uma resposta para “ 02) China ou Japão? ”

  1. Ary Demétrio Júnior disse:

    Tenho 2 canivetes Kershaw Vapor, um com fio liso feito no Japão e outro com lâmina sei-serrilhada produzido na China. Posso dizer-lhes que a superioridade do japonês é incomparável em termos de acabamento, fluidez na abertura e ausência de folgas.
    Abraços, Aryzão.