09) Aço Inoxidável?
Texto cedido gentilmente por Hélio Barreiro Júnior no tempo em que atuava junto a empresa Canif Ltda.
Aço inoxidável ?
O aço dito “inoxidável” foi inventado na Inglaterra em 1914, tendo sido utilizado em inúmeros componentes da indústria metalúrgica até que se conseguisse uma liga que permitiu a produção de itens de cutelaria. O aço comum, ou “aço carbono” não é, como pensam muitos, um elemento, mas sim um composto, uma solução sólida em que uma pequena porcentagem de carbono, não mais que 2%, está dissolvida numa massa de ferro. Uma vez exposta à atmosfera, a superfície de um objeto de aço pode reagir com o oxigênio (proveniente da água presente no ar) formando óxidos de ferro, que é a nossa conhecida ferrugem, também chamada, já que o produto da reação é um óxido, de oxidação. Para tentar fazer um aço inoxidável foram adicionados à sua liga elementos que não reagem com a umidade do ar e que se ligam fortemente ao ferro, impedindo assim a formação de óxidos indesejáveis. Ocorre que esses elementos, principalmente o Cromo e o Níquel, tomaram o lugar de parte do carbono, que é o responsável pela dureza que se consegue ao temperar as lâminas. Assim, se de um lado aumentou-se a resistência à corrosão, de outro, não mais se obtinham têmperas adequadas às lâminas de facas e outros utensílios. Por esse motivo as primeiras facas feitas em aço inoxidável eram bastante resistentes à corrosão mas cortavam mal, criando uma fama que vem até nossos dias de que facas de aço inoxidável não mantém o corte e são difíceis de afiar. Nos últimos vinte anos as técnicas siderúrgicas permitiram composições jamais imaginadas quando da criação dos primeiros aços inoxidáveis, justamente tentando fazê-los mais adequados às solicitações de ramos da indústria, como a cutelaria, que ainda não tinham um aço inoxidável ideal. Os resultados tem sido muito bons mas, com certeza ainda estamos longe da perfeição. Os aços obtidos nessas duas últimas décadas certamente permitem a produção de lâminas quase tão boas como as de aço carbono quanto à capacidade de corte e retenção dessa capacidade. São, no entanto, menos resistentes à corrosão que aquelas primeiras facas no dito aço inoxidável.
O termo “inoxidável” é também de uma imensa infelicidade e inadequação técnica. Inoxidável quer dizer que não se oxida, que não forma óxidos, o que, face ao exposto, não é verdade. A expressão original em inglês é “Stainless” que está mais para “menos manchável” que para “não manchável”.
Pense um pouco, os talheres e baixelas utilizadas em sua casa são de um tipo de aço inoxidável altamente resistente à corrosão, certo? Pois bem, as facas cortam bem? É evidente que não. A pia de sua cozinha é feita em um aço inoxidável que só deixando na praia para enferrujar. Será que dá para fazer uma faca com ele?
Certamente também não. Como dizem os norte americanos, “não existe almoço grátis”, se você quer uma faca que corte bem e não enferruje tem que, pelo menos, dedicar alguns cuidados especiais a ela.
O que fazer? Muito pouco, quase nada mesmo. Lá vai nossa listinha :
-Mantenha suas facas ou canivetes secos e limpos. Isso vale para o consumidor e para o balconista da loja. Após manusear uma faca, pelo menos passe uma flanela seca.
- Ao lavar sua faca ou canivete, se puder enxágüe apenas a área da lâmina com água bem quente ou mesmo fervendo. O calor retido pelo aço servirá para evaporar toda a água existente nos vãos que uma toalha não conseguiria atingir. Se isso não for possível, passe rapidamente a lâmina na chama do fogão com o bom senso de não atingir a empunhadura. Não se preocupe, fazendo isso você mal chega aos 100 graus centígrados, isso não é suficiente para destemperar sua faca!
Se também isso não for possível, deixe sua faca no sol forte por uma hora.
- Não guarde facas e canivetes dentro de suas bainhas. Sejam de couro, tecido ou Nylon, elas reterão umidade gerando um ambiente favorável à corrosão.
- Óleo ajuda? Sim, com certeza. Óleo, graxa ou mesmo uma cera isolarão a superfície do aço da atmosfera, impedindo a reação que forma os óxidos. Quando se trata de aço carbono o uso de algum desses produtos é indispensável. No caso do aço inoxidável isso não é essencial, mas que ajuda, ajuda, principalmente em ambientes agressivos como o litoral. Tenha, no entanto, extremo cuidado com as empunhaduras de materiais naturais, que muitas vezes mancham ou até racham sob a ação de óleos.
- Que óleo usar? Exclusivamente os de origem mineral, usados na lubrificação de máquinas. Evite os óleos para motores, pois contém aditivos indesejáveis. Óleos de origem animal ou vegetal nem pensar! Com certeza ao invés de proteger atacam a peça mais rápido ainda, principalmente o óleo de soja utilizado na cozinha. Os óleos em aerossol podem ser utilizados, mas por serem muito finos pouco oferecem como proteção, pois são removidos facilmente, além de serem muito penetrantes, muitas vezes indo parar em locais inconvenientes.
- Quando usar óleo? Apenas quando for guardar por longos períodos. O uso de óleos protetores em ferramentas de uso diário acaba por ser um foco aglutinador de poeira que mais atrapalha que ajuda. Uma peça de cutelaria de qualidade, feita em aço inoxidável, quando em uso constante, se mantida limpa e seca não será, por si só, resistente à corrosão. O problema está, em 99% dos casos, na armazenagem incorreta.
Contamos, finalmente, com você, consumidor ou lojista, para ajudar-nos a divulgar esses simples conceitos, óbvios demais para os engenheiros, mas que podem até ser fruto de indignação a muitos leigos: “Enferrujou! Como é que pode? Não é inoxidável? Vou devolver, vou trocar, vou ameaçar com a Lei do Consumidor.
Pois bem, maior que o Código Penal Brasileiro são as leis da Natureza e lamento muito informar, mas em se tratando de cutelaria NÃO EXISTE AÇO INOXIDÁVEL !
(Hélio Barreiro Júnior)